No bairro do General Gómez Jordana, concretamente no número 2 da Avda. Reyes Católicos esquina com García Cabrelles encontra-se esta magnífica mostra da impronta de Enrique Nieto em Melilla.
O melillense e doutor em História, Salvador Gallego Aranda, estudioso da obra do arquiteto catalão, fornece a seguinte informação:
“O ano de 1910 marca o início do processo edificatório de todo o quarteirão que temos vindo a analisar, com a concessão provisória, por parte do General Arizón – 14 de maio – dos referidos terrenos a D. Enrique Cururella Vidal, para a construção de uns pavilhões de madeira, cuja primeira condição é: Os usufruários não terão direito a indemnização quando, por causa de guerra, lhes for ordenado a destruição da quinta (sic), o que nos fala da precariedade da propriedade na cidade e da valentia, ousadia em alguns casos, apostando nas expectativas da cidade.
Os pavilhões que receberão o nome de “Pavilhão Mundial”, destinam-se a habitação e restaurante (1.326 m2) – junto ao “Circo de Variedades”-. Num deles, localizar-se-á o reconhecido “Restaurante Pavilhão Mundial”, magnífico local construído de propósito./Serviço esmerado, por prato à-/ base de mesa e à la carte// Reservados para famílias// Especialidade em banquetes (sic).
Noutros dos pavilhões estarão representados: “J.Esteva” de Barcelona, fabricante-inventor (1911), entre outros, de telhas irrompíveis e cartão couro arenado, posteriormente, segundo a lista de sócios da Câmara Oficial de Comércio, D. Eleutério Quadril-mineiro (1914) - e D. Andrés Gómez Giral-impressor (1917).
Decorridos os dois anos concedidos em usufruto do referido terreno, o Sr. Cucurella solicitará a sua concessão definitiva em 9 de março de 1912, comprometendo-se à capitalização do seu foro em dez anuidades e a construir, sobre ele (1.384,25 m2), edifícios de alvenaria de acordo com o projeto de urbanização aprovado.
Um ano mais tarde, concretamente a 21 de maio de 1913, ser-lhe-á favoravelmente informada, por parte do engenheiro da Junta de Arbitrios D. José de la Gándara, a instância apresentada a 16 de maio (por procuração, D. Pedro Sanabra) do projeto de construção de um edifício redigido em Barcelona, a 25 de setembro do ano anterior, pelo arquiteto catalão D. José Domènech Mansana, com uma composição e materiais dentro da estética mudéjar.
Para tal, terá de pagar o respetivo imposto e selo (492,33 pts, e 7 pts.), embora não saibamos, com certeza, por que razão o projeto não foi levado a cabo. Talvez, os baixos rendimentos da sua anterior empresa e a mais que provável rentabilidade com a janela da sua superfície, possam justificar, suficientemente, uma mudança radical de intenções.
Será, finalmente, no mês de março de 1928, quando, sob a assinatura do Sr. Nieto, ficar redigido este imóvel em chamfrão, com fachadas para a rua García Cabrelles e Avda. Reyes Católicos, para o secretário da secção de tecidos da União Gremial Mercantil da cidade, D. José García y Alvaro.
A empresa “El Acueducto” permaneceu nos seus rés-do-chão até ao primeiro quinquénio do presente século – localizando-se anteriormente à inauguração do imóvel, em Afonso XIII, 20 (3 de janeiro de 1930, hoje Avda. Juan Carlos I Rei)
Destaca o seu primeiro andar, sobremaneira, ao estar concebido a modo de mezanino, assinalando-se a sua separação com os superiores – habitações – por meio de umas varandas, de balaústres torneados que, sobre mísulas curvilíneas com folhas de acantos e rosas abertas, darão lugar às varandas corridas em fábrica da sua planta principal.
Este entrepiso, prolongamento do rés-do-chão no projeto, assinala os vãos adintelados com a moldura da sua clave, abrangendo a sua luz, num primeiro momento, o espaço existente entre as suas grandes pilastras. No chanfro o arquiteto situará a sua assinatura “pétrea”, confirmando, com isso, a par da autoria, a sua finalidade publicitária.
Os pisos superiores caracterizam-se pelos voos retangulares e semicirculares das suas varandas, pela ferrovia das peitoris e pelas linhas segmentadas que, nas sobrejanelas, abrigam o círculo e a palma, sendo, sobretudo, as grandes pilastras adossadas as que se singularizam pela palmeta e pendente – discos, flores quadráticas e “C” contrapostas –, culminadas por esferas galonadas.
Mas será, sem sombra de dúvida, o remate do imóvel na sua secção chanfrada o que nos remeterá, novamente, à aplicação e à pujança do Art Nouveau, ao contemplar a sinuosidade das suas ferragens intermédias e o frescor no olhar de uns rostos juvenis de longos e ondulados cabelos coroados por flores, como Termes ou Hermes que se desenvolvem no fuste da sua coluna com três linhas verticais que circundam o crescimento interior de uma planta trepadeira.
Com este edifício, executado pelo construtor D. Pedro Martínez, entramos de chofre no período dos grandes desenhos do barcelonês no ensanche. Nele se iniciará essa transição paulatina que, abandonando os pressupostos ornamentais do modernismo floral e assentando-se no secessionismo, nos conduzirá, por via do Art Déco, ao racionalismo arquitetónico.
[Bibliografia: Salvador Gallego Aranda. Enrique Nieto. Um passeio pela sua arquitetura. Fundação Melilla Cidade Monumental.2010]














